Françoise Dolto (1908-1988)
Biografia
Françoise Marette Dolto nasceu em Paris em 1908, em uma família burguesa católica. Formou-se em medicina e, desde os primeiros anos de prática, orientou-se para a pediatria e a psiquiatria infantil, abraçando a psicanálise como o campo privilegiado de escuta da criança. Analisou-se com René Laforgue e tornou-se interlocutora próxima de Jacques Lacan, a quem acompanhou na École Freudienne de Paris, fundada em 1964. Ao longo de sua carreira, desenvolveu uma clínica radicalmente orientada pela palavra — inclusive, e sobretudo, com crianças que ainda não falavam.
Sua trajetória institucional foi marcada por tensões e lealdades simultâneas. Dolto manteve vínculos estreitos com Lacan sem abrir mão de sua singularidade teórica e clínica. Nos anos 1970, tornou-se figura pública de alcance incomum para uma psicanalista, participando de programas de rádio (Lorsque l'enfant paraît, 1976–1978) e respondendo a perguntas de pais e educadores. Faleceu em Paris em 1988.
Desdobramento do Pensamento
A obra de Dolto desloca-se do estudo clínico das neuroses infantis para uma teoria da subjetivação precoce. Em Psychanalyse et Pédiatrie (tese de medicina defendida em 1939, publicada em livro pela Seuil em 1971), ela defende que a criança é sujeito, capaz de responder à interpretação analítica. Décadas depois, em L'Image inconsciente du corps (1984), distingue modalidades da imagem do corpo — a imagem de base, a imagem funcional e a imagem erógena.