Alice Cherki (n. 1936)
Biografia
Nascida em Argel em 1936, numa família judia argelina, Alice Cherki foi excluída da escola pelas leis de Vichy antes de estudar medicina em Argel e engajar-se no braço médico da FLN pela independência. Conheceu Frantz Fanon durante a guerra de independência (as fontes consultadas divergem quanto ao ano) e foi sua interna no hospital de Blida-Joinville até 1957, quando o cerco colonial a empurrou ao exílio — Paris, depois Túnis, onde reencontrou Fanon na clínica de Manouba e criou um centro psiquiátrico para soldados da ALN em La Marsa. Voltou à Argélia independente em 1962 e instalou-se em Paris em 1964 — definitivamente após o golpe de 1965. Psiquiatra (com especialização em psiquiatria infantil) e psicanalista, construiu no pós-dissolução da escola lacaniana um percurso fora das grandes instituições: cofundou o Collège des psychanalystes, integrou a Fédération des ateliers de psychanalyse e cocriou o espaço Diwan Occidental-Oriental. Parte de sua obra clínica trata de migrantes e seus descendentes (La frontière invisible, 2006).
Desdobramento do Pensamento
O percurso de Cherki nasce na clínica de guerra — Blida e Manouba ao lado de Fanon, o centro de La Marsa para combatentes — e amadurece na clínica de paz que a França lhe impôs: migrantes, filhos de migrantes, sujeitos sem papéis e sem narrativa. Frantz Fanon, portrait (2000) salda a dívida de testemunha; La frontière invisible (2006, Prêmio Œdipe de 2007) formula a teoria da fronteira psíquica, da transmissão quebrada e do déni; Mémoire anachronique (2016) assume a forma de carta a si mesma — memória que recusa a cronologia como recusa o esquecimento. No Diwan Occidental-Oriental, manteve viva a aposta de uma psicanálise entre as duas margens do Mediterrâneo.