Tania Rivera (n. 1969)
Biografia
Nascida em Brasília em 7 de julho de 1969, Tania Cristina Rivera é psicanalista, escritora, curadora e professora titular da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde integra o Departamento de Arte e o Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes. Graduou-se em Psicologia pela Universidade de Brasília (1991), obteve mestrado e doutorado em Psicologia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica (doutorado em 1996), e realizou pós-doutorado em Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ (2006). Lecionou na UnB de 1998 a 2010, antes de se transferir para a UFF. É também docente colaboradora nos programas de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e em Artes da Cena (UFRJ). Sua produção articula psicanálise, arte contemporânea, gênero e questões de descolonização do pensamento, posicionando-a como uma das vozes mais originais da psicanálise brasileira contemporânea.
Contribuição Central
A obra seminal de Rivera é O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise (Cosac Naify, 2013), vencedora do 56.º Prêmio Jabuti na categoria Psicologia e Psicanálise em 2014. Nela, Rivera examina como a arte contemporânea opera no avesso da imagem especular — aquilo que escapa à captura imaginária e que a obra de arte pode tornar visível. O argumento central é que a arte não ilustra o inconsciente nem o representa: ela o encena, produz efeitos de sujeito, convoca o espectador para uma experiência que excede a recognição. Essa concepção desloca a psicanálise da posição de metadiscurso interpretativo para a de parceira no processo criativo, atenta ao que na arte resiste à simbolização plena.
Conceitos-chave
- psicanálise e arte contemporânea — campo de interlocução em que a arte não é objeto de interpretação, mas parceira que força a psicanálise a repensar o sujeito, a imagem e o olhar.
- avesso do imaginário — aquilo que na obra de arte escapa à captura especular da imagem e que a arte contemporânea torna visível, desorganizando a recognição.
- efeito de sujeito — o que a obra produz ao convocar o espectador: em vez de representar o inconsciente, a arte o encena e faz emergir subjetividade.
- sublimação e criação — retorno a Freud que pensa a criação como trabalho com a perda e com o vazio, não como simples desvio do sexual para fins elevados.
- psicanálise antropofágica — apropriação da antropofagia oswaldiana para descolonizar o saber psicanalítico, deixando-o ser devorado e transformado pela alteridade cultural, pelo gênero e pela experiência brasileira.
Desdobramento do Pensamento
O percurso de Rivera parte da interface clássica entre psicanálise e literatura, explorada em Arte e psicanálise (Jorge Zahar, 2002) e Guimarães Rosa e a psicanálise (Jorge Zahar, 2005), onde a ficção rosiana serve de laboratório para pensar linguagem, sujeito e travessia do imaginário. Em Cinema, imagem e psicanálise (Jorge Zahar, 2008), expande o campo para as imagens em movimento, investigando como o cinema solicita e desorganiza o olhar. Com Hélio Oiticica e a arquitetura do sujeito (EdUFF, 2012), a arte brasileira entra em cena: a obra de Oiticica torna-se paradigma de uma arte que não representa o sujeito, mas o constitui no ato participativo. Em Psicanálise antropofágica: identidade, gênero, arte (Artes e Ecos, 2020), Rivera radicaliza a dimensão política, articulando a metáfora oswaldiana da antropofagia com questões de gênero, identidade e descolonização, propondo uma psicanálise que se deixe devorar pela alteridade cultural em vez de impor categorias eurocentradas.
Diálogo e Ruptura
Rivera constrói sua obra em diálogo constante com Lacan, de quem retoma a teoria do sujeito, a função do significante e a estrutura do olhar — especialmente a partir dos Seminários sobre os quatro conceitos fundamentais. Mas o uso que faz de Lacan é sempre atravessado pela experiência concreta da arte: o que interessa não é a aplicação do esquema lacaniano à obra, mas o que a obra força a pensar para além do esquema. A Freud, Rivera retorna pela via da sublimação, do jogo do fort-da e da relação entre criação e perda, articulando esses elementos com uma teoria do sujeito que não se reduz ao recalque. Com Winnicott, o diálogo é menos explícito mas estruturante: a noção de espaço potencial e a ideia de que a experiência criativa é condição de saúde psíquica ressoam em sua concepção da arte como espaço de constituição subjetiva. Kristeva aparece como interlocutora no tratamento da linguagem poética e do semiótico — a dimensão pré-verbal, rítmica e pulsional que excede o simbólico e que a arte contemporânea mantém em tensão produtiva com ele. A ruptura de Rivera em relação à tradição psicanalítica está na recusa de uma psicanálise aplicada: arte não é objeto da psicanálise, mas seu campo de interlocução e, por vezes, de desorientação fecunda.
Principais textos
- Arte e psicanálise (2002)
- O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise (2013)
- Fora da imagem (2017)
- O livro de vidro (2019)
- Psicanálise antropofágica: identidade, gênero, arte (2020)
Influência Contemporânea
Rivera é referência central no Brasil para pesquisadores que trabalham na interface entre psicanálise, arte e cultura. Sua atuação como curadora e sua presença em eventos de arte contemporânea ampliam o alcance de sua obra para além dos círculos psicanalíticos, criando pontes com artistas, críticos e educadores. O reconhecimento do Prêmio Jabuti consolidou sua visibilidade pública. Nas universidades, sua produção alimenta pesquisas em programas de pós-graduação em artes, psicanálise e estudos de gênero, particularmente nas articulações entre subjetividade contemporânea, imagem e política. A virada para a "psicanálise antropofágica" nos anos 2020 a posiciona também no debate sobre descolonização do saber psicanalítico no Brasil, questionando em que medida conceitos forjados na Europa respondem às singularidades do sujeito e da cultura brasileiros.
Matrizes Clínicas
- Técnica e Ética
- Gênero e Sexualidade
- Social e Político